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Nosso assunto, o almoço
Prezado(a),
Nossa profissão não é fácil de explicar.
Note, para começar, que fazer economia, ou economizar, tem muito pouco a ver com o que faz o economista.
O verbo, de fato, confunde o substantivo.
Na verdade até atrapalha, pois muitos de nós, inclusive, são adversários da parcimônia e até mesmo hostis à noção de que o ato de poupar constitui manifestação de virtude. Embora muitos economistas estejam do lado das formigas, enxergando na previdência e na frugalidade as chaves para um futuro tranquilo, tanto no plano individual como para a prosperidade de uma nação, talvez a maior parte esteja com as cigarras, e esses são, não por acaso, os preferidos de políticos e de empresas de engenharia.
O célebre economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946), um dos maiores que já existiram, gostava mesmo de se destacar entre esses. Em meio à chamada Grande Depressão (a crise de 1929), ele chamou muita atenção para si ao argumentar que se todos resolvessem, ao mesmo tempo, economizar mais, e portanto gastar menos, o resultado seria mais recessão e mais desemprego. Era o contrário do que as pessoas esperavam ouvir naqueles dias sofridos: em uma famosa fala pelo rádio, em 1931, ele gerou muita controvérsia ao dizer que a cada 5 xelins poupados, era mais um desempregado.
Bem, isso tudo talvez lhe soe familiar, pois quando o Brasil começou a experimentar os efeitos da grande crise de 2008, o presidente da República exortou nossos consumidores a seguirem firmes em suas compras e crediários. Ia ser uma “marolinha”, segundo seu prognóstico. Os gastos públicos foram elevados e o ministro da Fazenda, a cada 10 palavras, esmerava-se em usar a expressão “política anticíclica”, como se estivesse usando um terno meio extravagante que ficou muito tempo no armário, uma roupa de estimação, meio fora de moda, mas que ele estava ansioso para usar. Alguns economistas criticaram, outros nem tanto. Aprende-se na faculdade que construir pirâmides, armar exércitos ou comprar café para tacar fogo, como fizemos aqui no Brasil nos anos 1930, podem representar soluções para se tirar uma economia de uma recessão profunda. Contudo, nada disso é muito próprio para tempos normais. Nunca perca de vista que os grandes desperdícios de dinheiro público, em geral, só servem para piorar as coisas, a despeito de seus efeitos expansionistas e dos empregos diretos e indiretos que criam em um primeiro momento.
A ideia de que abstinência em gastar, sobretudo quando generalizada, pode ser prejudicial à economia está entre as inúmeras situações nas quais o resultado coletivo de ações individuais bem-intencionadas pode ser negativo para a comunidade. Os economistas adoram essas coisas. Na verdade, o mundo do economista é exatamente esse fascinante e complexo território repleto de paradoxos e polêmicas, na franja entre a psicologia de massas e a patologia social, onde habitam as multidões ensandecidas no interior de “bolhas”, que é como designamos os episódios de irracionalidade financeira coletiva (você saberá do que se trata quando enxergar um desses), nas quais as pessoas usam as fórmulas mais variadas para (não) fazer cálculos e responder a incentivos. É nesse estranho lugar que se entende – ou não – como a nossa espécie se organizou e evoluiu, ainda que de forma heterogênea, de modo a produzir um progresso material nada menos que fabuloso, sobretudo nos dois séculos posteriores ao XIX, que os países “emergentes” tanto se esforçam para emular.
O raciocínio de Keynes, reinventado a cada recessão, em toda parte, se tornou uma espécie de clássico. Cada pequena demonstração de que o coletivo não se comporta como um indivíduo, ou de que o senso comum conduz a enganos, tanto na macro como na microeconomia, funciona como um pequeno manifesto a favor do conhecimento especializado nessa disciplina, ou um sinal de que, na ausência dos profissionais de economia, as pessoas comuns estariam quase sempre desamparadas diante de fenômenos macro sem nenhuma lógica aparente – como depressões e hiperinflações. Isso para não falar das decisões sobre finanças pessoais, que podem ser um tanto complexas, sobretudo se você for muito “keynesiano” nas suas despesas.
A economia não é um assunto fácil nem intuitivo. E os economistas, para piorar, tornam a coisa simplesmente indecifrável, parecendo gerar complicação desnecessária com vistas a confundir. Parte disso tem a ver com o vocabulário, um problema para qualquer forma especializada de saber. O jargão funciona como andaimes que levam o pensamento a pontos mais altos do que alcançaria se ficasse apenas na ponta dos pés. É útil, mais do que isso, talvez, mas afasta da conversa quem não é do ramo. As explicações ditas “populares” costumam induzir a erro, lamentavelmente, pois a maior parte dos conteúdos da economia não é composta de temas que “qualquer pessoa é capaz de entender”. Acostume-se: não há explicações simples para a maior parte dos grandes assuntos dessa profissão.
Outro problema é que as pessoas desconfiam, sobretudo se a explicação é muito curta. Se você dá respostas rasteiras com frequência, não se engane com a aparente condescendência do distinto público: vão duvidar da profundidade do seu conhecimento. É sempre bom falar um pouquinho de javanês.
Quero voltar a esse riquíssimo tema da comunicação entre os profissionais da disciplina e seus predadores naturais em outra ocasião, quando você já tiver entendido melhor o que o economista faz. Este é, aliás, o nosso primeiro tema fundamental, e o assunto desta carta: o que, afinal, faz o economista?
Para responder a essa pergunta vamos, em primeiro lugar, dar um passo para o lado. Vá se acostumando, isso é típico da profissão, como você verá repetidamente ao longo desta nossa correspondência. Vamos abordar o problema em etapas, ou seja, para explicar o profissional, vamos começar pelos assuntos de que ele se ocupa.
Não há dúvida de que a economia é o assunto mais antigo do mundo, pois trata da preocupação do ser humano com o seu conforto material. Se nossa espécie não tomasse como central o desafio de melhorar suas condições de vida, talvez ainda vivêssemos em cavernas. Não obstante espiritualistas e místicos, que nos atribuem razões transcendentais, a motivação econômica – incentivos, para usar a linguagem especializada – é o que move a humanidade, todo mundo pensa nisso tanto quanto naquilo.
O assunto pode ser antigo, mas a profissão é nova. Surgiu precisamente no século XVIII, quando a vida econômica foi se tornando mais complexa que em qualquer outra época anterior. Não era mais possível que a sua prática, assim como a sua teoria, ficasse confiada a filósofos que eram também astrônomos e alquimistas, ou seja, cientistas em geral. O ponto de inflexão foi o ano de 1776, quando Adam Smith (1723-1790) publicou um livro extraordinário, ainda hoje uma delícia de leitura, conhecido pelo título abreviado: A riqueza das nações. Smith foi, além de tudo, um campeão da boa escrita.
Cerca de um século antes, Francis Bacon (1561-1626), talvez o maior sábio de seu tempo – e que, segundo muita gente, também escreveu extraordinárias obras sob o pseudônimo “William Shakespeare” –, afirmou que todo o conhecimento deveria residir em um homem só. Era como se a sabedoria nada ganhasse com a especialização e um único sábio devesse concentrar toda a ciência da época. Essa “teoria” se mostraria inapropriada para os tempos que vieram a seguir, mas talvez fosse nada mais que uma espécie de lenda, como a conjectura segundo a qual Bacon teria escrito Hamlet, O rei Lear, Macbeth, Otelo e 30 e tantas outras peças de teatro.
Mas a teoria baconiana não era tão tola em 1776, quando Smith demonstrou em seu livro, entre tantas outras coisas, que o assunto já estava suficientemente complicado e precisava ser confiado a especialistas. Alguns séculos depois, com o advento das redes sociais, cresceu brutalmente a hostilidade em relação a especialistas, os economistas incluídos. Vamos voltar a esse assunto várias vezes em nossa correspondência. Eram vastas as implicações morais das novas ideias trazidas por Smith, que até hoje causam polêmica: A riqueza das nações não era propriamente um manifesto a favor do egoísmo, mas, curiosamente, serviu para conferir racionalidade e funcionalidade ao dever de cada um de nós de zelar pelo que é seu e procurar o melhor para si. A lição de Smith continua muito atual e se apresenta amiúde através de uma
passagem clássica:
Não é da bondade do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse. Apelamos não para sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos de nossas necessidades, mas das vantagens deles.
Há algo parecido logo no começo do imensamente bem-sucedido Freakonomics, livro de Steven Levitt e Stephen Dubner publicado no Brasil em 2005: “O moralismo representa a forma como as pessoas gostariam que o mundo funcionasse, enquanto a economia representa a forma como ele realmente funciona.” Só é preciso entender os incentivos, o que parece ter o condão de tornar a nós, seres humanos racionais, ainda piores aos olhos do politicamente correto. É o mesmo que nos diz Ambrose Bierce (1842-1914?), famoso escritor, jornalista e polemista americano, em seu impagável O dicionário do diabo, no verbete “cínico”, para o qual oferece a seguinte definição: “Patife cuja visão defeituosa lhe faz ver as coisas como elas são e não como elas deveriam ser.”
Tenha claro, por favor, que não há problema nenhum em atacar a sabedoria estabelecida através de paradoxos – isso é uma espécie de vício de origem para nós. Mas não perca de vista que ir contra o senso comum é um esporte radical: há muito risco e, se você errar, vai acabar no hospital. Sempre será necessário provar o que você diz, e costuma ser difícil. Lembre-se, não é porque uma afirmativa é paradoxal que será verdadeira, mesmo entre economistas. Não inverta a lógica da coisa, é um erro de principiante. A verdade não aparece sempre de forma contraintuitiva. Pode ser mais divertido, mas não é tão comum. Muito cuidado ao atacar a sabedoria estabelecida, pois, na maior parte dos casos, você estará errado. Lembre-se de que o conhecimento que você herda se estabeleceu a partir do trabalho diligente de muitos como você e eu, depois de anos e anos de tentativa, erro e decantação. Melhor não trabalhar com as chances de você fazer uma contribuição científica espetacular ao longo de seu curso de graduação, especialmente durante uma prova; lamento informar que a probabilidade é insignificante.
Não fique triste, por favor, estou aqui para lhe dizer como as coisas realmente são, e não como deveriam ser, ok? Os economistas não são bons de textos motivacionais, os grandes clássicos da autoajuda vêm de outras profissões. Acho que somos muito competitivos e ciumentos, ou sinceros demais, para esse gênero.
Mas é claro que você sempre pode fazer um tuíte dizendo qualquer coisa, sobre qualquer assunto complexo, e ter centenas de milhares de curtidas, e se você o fizer seguidamente será um “influenciador” e terá muito mais seguidores que qualquer economista acadêmico consagrado. Esse é o planeta da pós-verdade, em que ficou mais difícil convencer os jovens a estudar.
Muitos anos ainda se passariam, depois de Adam Smith deixar este mundo, até que a nova disciplina ganhasse definições mais precisas. A mais famosa, ou talvez a mais popular entre nós, tem como autor um professor inglês não tão conhecido, Lionel Robbins (1898-1984): a economia é a ciência que estuda o uso de recursos escassos para fins alternativos. Muita gente já começa a implicância com a ideia de que estamos tratando de uma ciência, outro assunto polêmico para discutir com calma mais adiante. Estamos falando aqui, na verdade, de conhecimento especializado, nada mais. Vamos falar sobre ciência adiante, em muitos outros contextos. Por ora basta ter clareza sobre nosso objeto de estudo: a escolha ou, melhor dizendo, as escolhas difíceis, onde há risco, ou quando as alternativas têm custo, ou quando existem incentivos diferenciados conforme as possibilidades. E as escolhas mais interessantes, aquelas que fornecem temas de estudo para o economista, são aquelas em que, conforme o exemplo consagrado, o sujeito precisa decidir se quer o almoço ou o dinheiro. Essa é uma escolha nada trivial porque não é possível escolher ambas, ou seja, não há almoço grátis. Não se pode ter e comer o bolo ao mesmo tempo.
Se eu tivesse que eleger uma espécie de motto para a profissão, nossa frase predileta, nosso lema, não creio que encontrasse algo melhor. Há outras possibilidades boas, ainda que diferentes no escopo. Não desgosto de “o capital é uma relação social”, mas reconheço que é meio marxista demais, talvez fora de moda. Gosto também de “a moeda é uma instituição” (de John Hicks, entre muitos outros), mas Joseph Schumpeter (1883-1950), grande economista austríaco com reputação de playboy, disse que isso não significa nada, pois o casamento também é.
Sendo assim, vamos ficar com o almoço, valendo observar que Machado de Assis possui uma fala de mesmo sentido (apenas lembrando que no centro do Rio de Janeiro há, sobre uma colina, uma igreja devotada a Nossa Senhora da Glória): “Todos querem ir à Glória sem pagar o bonde.”
São inúmeros os corolários dessa simples e poderosa ideia, de aparência banal mas de imensas implicações; os exemplos nos tomariam várias cartas. O mundo a sua volta está repleto de pequenos e complexos desafios e de pessoas inteligentes que reagem a incentivos de forma calculada e nada evidente. É espantosamente grande a latitude dos temas e fenômenos que os economistas podem cobrir se valendo de suas ferramentas e que têm a ver com escolhas sofisticadas motivadas por incentivos econômicos. Geralmente chamamos de microeconomia a família de modelos e análises que tratam de indivíduos e pequenos grupos, e é nesse terreno que o fenômeno da escolha se apresenta de forma mais instigante. Os iniciantes na profissão são expostos a versões meio apalermadas da espécie humana em modelos em que um ou mais “agentes econômicos maximizam utilidade”, e para isso se usa o cálculo diferencial. (A expressão “agentes econômicos” irritou o país inteiro por ocasião do Plano Collor, em 1990, pois era como a ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, se referia a nós, cidadãos e cobaias.) Esse é o famoso Homo economicus, criatura simples atribuída a Adam Smith – e você terá muitas oportunidades de julgar se a caricatura tem serventia.
Para terminar, pois não quero que esta nossa primeira carta fique muito longa, queria lhe dizer que, em última instância, nosso assunto é o modo como agem os conjuntos de pessoas quando se trata de decisões que afetam suas condições materiais de existência. O assunto mais nobre, ou ao menos o mais popular para nós, economistas, é o coletivo. Trata-se aqui do comportamento econômico dito social. Não no sentido canhestro que lhe deu o ex-presidente José Sarney, com o seu “Tudo pelo social”, o lema de seu governo: a ausência de limites para certo tipo de gasto público, postura que nos levou à hiperinflação. Tampouco se trata do “social” de Ibrahim Sued, o patrono do colunismo social e da glorificação do society. O “social” aqui tem o mesmo significado que tem na sociologia e na ciência política, isto é, a lógica da ação coletiva, ou o comportamento grupal, que revela uma racionalidade própria do grupo, que, por sua vez, não é apenas a soma de seus indivíduos, é algo bem maior, e portanto muito diferente. Vamos começar a tratar disso em nossa próxima carta.